App RotaEV agora fala com PlugShare e ABRP: do OBD2 ao planejamento de recarga
A versão em desenvolvimento do app já envia telemetria ao vivo para o ABRP e consulta o PlugShare para achar carregadores. Aqui está como essas conexões funcionam — por dentro do carro e depois dele.
A versão em desenvolvimento do app RotaEV ganhou duas conexões novas. Com o PlugShare, para localizar pontos de recarga compatíveis com o GWM Ora 03. E com o ABRP (A Better Route Planner), que já está recebendo telemetria ao vivo do carro — carga da bateria, velocidade e posição — a cada 15 segundos.
Falta ainda definir o procedimento pelo qual qualquer usuário do app vai conseguir conectar sua própria conta ABRP a esse fluxo — hoje a sincronização funciona, mas ainda não está aberta de forma padronizada para todo mundo. O próximo passo em avaliação é a complexidade de rodar uma versão do app na própria tela do carro, no estilo Android Auto — mas isso só será investigado depois que a versão para celular estiver estável e lançada.
No post anterior expliquei como o app RotaEV lê os dados do GWM Ora 03 através de um adaptador ELM327 plugado na porta OBD2. Aquilo resolveu a primeira metade do problema: colocar os números do carro — carga da bateria, consumo, temperatura — dentro do celular. A pergunta natural que veio depois foi: e agora, o que fazer com esses dados além de mostrá-los na tela?
A resposta que estamos implementando nesta fase é: mandar parte desses dados para dois serviços que qualquer motorista de elétrico no Brasil provavelmente já usa — o ABRP e o PlugShare — e receber de volta informação sobre rotas e pontos de recarga. Este post explica como essa ponte funciona, usando um diagrama conceitual de rede automotiva para deixar claro por que existem, na prática, duas camadas de comunicação diferentes envolvidas nisso — uma dentro do carro, outra fora dele.
ABRP e PlugShare resolvem problemas diferentes
Vale separar os dois antes de entrar em como cada conexão funciona, porque eles não fazem a mesma coisa — já comentei essa diferença com mais calma no post “ABRP ou Plugshare? Qual devo usar?”.
ABRP
Calcula rotas com paradas de recarga a partir de um modelo de consumo do veículo, elevação, clima e trânsito. Com telemetria ao vivo do carro, ele troca a estimativa genérica por dados reais e ajusta a previsão durante a viagem.
Sincronização já funcionandoPlugShare
Uma base colaborativa de carregadores, com avaliações e check-ins de outros motoristas. O app consulta essa base para mostrar estações compatíveis com o conector do Ora 03 perto da rota ou da localização atual.
Conectado nesta versãoNa prática, um planeja o caminho e o outro ajuda a confirmar se o carregador que aparece nesse caminho realmente existe, funciona e é do tipo certo — o Ora 03 carrega em Tipo 2 (AC) e CCS2 (DC), então o filtro de compatibilidade importa de verdade numa base com mais de um padrão de conector circulando pelo Brasil.
Por que existem duas camadas de comunicação, não uma só
Essa é a parte mais didática do post, então vale ir com calma. Quando a gente fala em “o app conversa com o carro e depois manda dado pra internet”, isso na verdade envolve duas redes de comunicação completamente diferentes, uma dentro da outra.
Um veículo elétrico moderno tem dezenas de módulos eletrônicos — bateria, motor, direção, painel, ar-condicionado — trocando mensagens por redes internas chamadas CAN bus, segmentadas por domínio (propulsão, chassi/segurança, conforto/carroceria). Um gateway central decide o que atravessa de uma rede pra outra, e o que pode sair pelo conector de diagnóstico OBD-II.
Depois que o ELM327 lê o dado pelo OBD2 e o Bluetooth entrega ao celular, ele entra numa rede sem relação nenhuma com CAN bus: a internet do próprio aparelho. É aqui que o app conversa com as APIs do ABRP e do PlugShare, cada uma sendo a “porta de entrada” que cada serviço oferece pra apps de terceiros.
O diagrama abaixo é uma representação conceitual e genérica da Camada 1 — não é o esquema elétrico exato do Ora 03, que é proprietário da GWM — mas ilustra bem a lógica que qualquer app de telemetria, incluindo o RotaEV, precisa respeitar:
O ponto prático disso: o ELM327 conectado à porta OBD2 do Ora 03 fala com o gateway através do canal de diagnóstico e serviço (em laranja no diagrama) — não com cada módulo diretamente. O app nunca “invade” a rede de propulsão ou a de chassi; ele recebe apenas o que o gateway decide traduzir e liberar por aquele canal.
O caminho completo do dado, em quatro paradas
Carro — ECUs e BMS
Os dados nascem nos módulos internos do Ora 03, trafegando nas redes CAN segmentadas por domínio.
Gateway + OBD-II
O gateway filtra e traduz o que pode sair pela porta de diagnóstico, a única saída autorizada para leitura externa.
ELM327 → Bluetooth → App
O adaptador conversa com o gateway via OBD2/UDS e repassa os valores já traduzidos para o celular.
App → Internet → ABRP/PlugShare
A segunda camada, fora do carro: telemetria ao ABRP a cada 15s e consultas ao PlugShare sob demanda, via HTTPS.
O intervalo vale para a conexão com o ABRP, que usa esse fluxo — chamado por eles de Live Data — para corrigir a previsão de autonomia em tempo real. Enviar dado a cada 1 ou 2 segundos não traria ganho relevante de precisão e gastaria bateria e dados móveis à toa; esperar mais de 30 segundos deixa a estimativa do ABRP visivelmente atrasada em relação ao carro real. Quinze segundos fica dentro da faixa que o próprio ABRP recomenda para esse tipo de integração. Já a consulta ao PlugShare é uma busca pontual, não um fluxo contínuo — o app pergunta “quais carregadores compatíveis existem aqui” sempre que faz sentido, sem precisar de atualização constante.
Veja a nova versão em ação
Em vez de só descrever o processo, gravei a nova versão do app em ação, já conectada ao PlugShare e ao ABRP.
Gravei também um vídeo específico mostrando o app e o ABRP sincronizando em tempo real:
O app já está enviando dados para o ABRP e a sincronização funciona, como o vídeo mostra. O que ainda falta definir é o procedimento pelo qual os demais usuários do app vão poder fazer essa mesma conexão — hoje isso ainda não está aberto de forma padronizada, é algo que preciso desenhar antes de liberar para todo mundo. A vantagem de resolver isso é direta: com a conexão ativa, o ABRP passa a receber o percentual de bateria do carro a cada 15 segundos, em vez de estimar o consumo com base em médias genéricas — melhorando bastante o planejamento de recarga numa viagem, porque o ABRP recalcula quanto vai sobrar de bateria até a próxima parada com base no que está realmente acontecendo no carro, não numa suposição.
E o Android Auto? Ainda não — mas está no radar
Uma pergunta que já apareceu algumas vezes: já que o app lê o carro em tempo real, por que não colocar essas informações direto na tela central, no estilo Android Auto? É uma ideia que faz sentido e que vamos avaliar — mas com os pés no chão sobre o tamanho do trabalho.
Apps para tela automotiva seguem um conjunto de regras e templates específicos do próprio Android, pensados pra reduzir distração ao volante — telas mais simples, interações limitadas, exigências diferentes de aprovação. Isso é, na prática, uma versão separada do app, com projeto de interface próprio, não uma configuração a mais na versão de celular. Por isso a decisão, por enquanto, é estabilizar e lançar a versão para celular primeiro, e só depois avaliar com calma a complexidade real de uma versão para tela do carro.
Perguntas frequentes
ABRP (A Better Route Planner) é um app de planejamento de viagens para elétricos que calcula rotas com paradas de recarga a partir de um modelo de consumo do veículo. Recebendo telemetria ao vivo — carga da bateria, velocidade, posição — ele troca essa estimativa genérica por dados reais e ajusta a previsão durante a própria viagem.
PlugShare é uma base colaborativa de pontos de recarga, com avaliações e check-ins de outros motoristas de elétricos. A integração faz o app RotaEV consultar essa base para mostrar estações compatíveis com o conector do Ora 03 (Tipo 2 em AC, CCS2 em DC) perto da rota ou da localização atual.
É um equilíbrio entre manter a estimativa do ABRP atualizada e não gastar bateria e dados móveis à toa enviando pacotes o tempo todo. Quinze segundos está dentro da faixa recomendada pelo próprio ABRP para esse tipo de conexão de telemetria ao vivo.
É uma possibilidade em avaliação, mas não é o próximo lançamento. Antes disso, o foco é estabilizar e lançar a versão para celular. Rodar na tela do carro exige adaptar a interface às regras e templates específicos que o Android exige para apps automotivos.
Sim. O app usa suas próprias contas do ABRP e do PlugShare para autenticar e trocar dados — o RotaEV não substitui essas contas, ele se conecta a elas.
Ainda não. A sincronização com o ABRP já funciona tecnicamente — telemetria ao vivo a cada 15 segundos, como mostra o vídeo acima — mas o procedimento padronizado para que qualquer usuário do app conecte sua própria conta ainda está sendo desenhado. É um dos próximos passos antes do lançamento mais amplo.
Quer entender melhor a diferença entre ABRP e PlugShare, ou como o app lê os dados do carro pelo OBD2?
Ver o post da telemetria →Publicado em julho de 2026. O app RotaEV ainda está em desenvolvimento — recursos, prazos e o procedimento de conexão do usuário ao ABRP podem mudar até o lançamento público.